CINDERELA
Era uma vez, depois do “felizes para sempre”
Gera Teixeira
Cinderela acordou no dia seguinte ao casamento com o corpo moído. A valsa tinha durado três minutos e meio, mas o sapatinho de cristal ainda pesava como chumbo na memória. O príncipe, sorridente e perfumado, beijou-lhe a testa e saiu para uma “reunião de reino”. Ela ficou sozinha num quarto maior que a casa inteira da madrasta.
Olhou o guarda-roupa. Trezentos vestidos. Nenhum com bolso.
— Meu Deus, como é que a gente guarda um lenço de papel? — murmurou, sentindo falta da velha bata cinzenta que, ao menos, tinha mangas para enxugar a testa.
O príncipe era gentil, bonito e quase inútil para assuntos práticos. Quando ela pediu uma vassoura, mais por hábito do que por necessidade, ele chamou três camareiras, um arquiteto e um consultor de feng shui.
— Amor, eu só queria limpar um cantinho.
— Querida, isso é trabalho para especialistas.
O castelo tinha regras. Muitas. Não podia descer à cozinha, porque “rainha não cheira a sopa”. Não podia rir alto, porque o mármore devolvia tudo em eco. E, sobretudo, não podia tirar os sapatos na frente de ninguém. O pé dela, acostumado a andar descalço no jardim, inchava dentro daqueles saltos finos. À noite, escondia os dedos debaixo da colcha como quem esconde um segredo de Estado.
A sogra, a rainha viúva, era o verdadeiro dragão da história. Uma senhora de olhar afiado, capaz de medir a origem de alguém pelo modo como segurava uma xícara.
— Querida, você ainda anda com um certo balanço de quem varreu muito. Tente flutuar.
Cinderela tentou. Flutuou tanto que, numa tarde, escorregou no mármore encerado e caiu sentada no meio do corredor. Três duquesas viram. No dia seguinte, o reino inteiro comentava que a nova princesa tinha inaugurado “um estilo espontâneo e refrescante”.
O príncipe vivia entre audiências, caçadas e discursos. Quando chegava, exausto, contava proezas que ela desconfiava serem trinta por cento verdade e o resto brasão. Ela sorria, concordava, e depois ia consertar sozinha a torneira do banheiro, que pingava desde o reinado do bisavô.
— Aprendi com ratos falantes — dizia baixinho, girando a chave inglesa.
Certa noite, ela levou os dois para a cozinha. Ideia dela. O príncipe segurou a frigideira com a solenidade de quem segura um cetro, queimou o ovo até virar carvão e riu como criança.
— Nunca fui feliz assim — disse ele, sem perceber direito o tamanho da frase.
Ela também não respondeu. Ficaram os dois ali, no meio da fumaça, sem música, sem plateia, sem ninguém anunciando nada.
Mais adiante, mandou fazer um vestido com bolso. Ensinou o príncipe a dançar valsa sem testemunhas. Parou de flutuar.
Quando alguém pergunta como é a vida no castelo, ela sorri, ajeita um grampo frouxo no cabelo e responde:
— É um trabalho em andamento.
E vive feliz. Não “para sempre”. Apenas feliz, que já é raro o bastante.
